A vida no mar de Mafra a 300 milhões de anos atrás

- 16 de Julho de 2020
Você já ouviu falar no Campaleo? Ou no Horizonte de Macrofósseis do Folhelho Lontras? Mesmo que você não conheça esses termos, caso resida no norte de Santa Catarina, certamente já ouviu falar nos fósseis de Mafra, com os peixes petrificados, ou com as baratas mais antigas que os dinossauros. Talvez tenha ouvido comentários sobre outras estranhezas do nosso passado, como os casulos de insetos ancestrais, ou os conodontes - um dos mais primitivos animais vertebrados do planeta, que viviam junto a esponjas marinhas cheias de pequenos espinhos silicosos, conchas de braquiópodes, crustáceos e restos de plantas e micro-organismos.
Pois bem, todo esse conjunto de fósseis com cerca de 300 milhões de anos compõe a “biota” do Horizonte de Macrofósseis do Folhelho Lontras, e são escavados no sítio paleontológico chamado de Campaleo, assim mesmo, escrito sem acento. O “Campaleo” foi batizado assim por ser a área de pesquisa, ou campo, do CENPALEO. E, o melhor, esse sítio paleontológico não está em algum parque ambiental de um país distante – ele está aqui, entremeado à cidade de Mafra, no Planalto Norte de Santa Catarina.
“Magnífico saber que aqui em Santa Catarina nós podemos visualizar os animais que viveram milhões de anos atrás, em um ambiente semelhante aos vales da costa sul do Chile (fjords) assim como da Nova-Zelândia. O Folhelho Lontras é como uma janela para o passado, dá para acreditar, tecido de espoja marinha preservado?” comenta o Dr. Lucas Del Mouro, do LMPT/Geologia da UFSC, primeiro autor do trabalho.
Entender como essa mistura de organismos diferentes ficou preservada, por tanto tempo nas rochas de Mafra tem sido um grande desafio para os paleontólogos – que são os cientistas que estudam os fósseis. A busca por esta resposta motivou uma pesquisa que congregou um grupo de paleontólogos de diversas especialidades. A coalisão investigativa envolveu profissionais do Centro Paleontológico da Universidade do Contestado (CENPALEO), da UFSC, UFSCAR, UFRGS, UNISINOS, USP e do Museu Nacional. Para entender os fenômenos que envolvem esses fósseis enigmáticos, os pesquisadores realizaram análises com os mais diversos recursos tecnológicos, em laboratórios do Brasil e Alemanha.
Os primeiros resultados desta pesquisa acabam de ser publicados em um artigo na revista “Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology”. Buscando compreender os processos químicos que possibilitaram a preservação excepcional dos fósseis de Mafra, diversas análises tecnológicas foram empregadas, como a espectroscopia de raios-x, a espectroscopia Raman e a microfluorescência de raios-x em luz síncotron – esta realizada junto ao acelerador de partículas em Campinas, no Laboratório Nacional de Luz Síncotron - CNPEM. “Tanto o AstroLab/USP, chefiado pelo Prof. Dr. Fabio Rodrigues, quanto o CNPEM, são grandes facilitadores de análises geoquímicas. O uso dos equipamentos é gratuito e aberto para a comunidade científica. Esse esforço colaborativo entre a paleontologia e a física aplicada, conhecido como paleometria, tem permitido o desenvolvimento de técnicas cada vez mais eficazes e eficientes para o resgate de informações no registro fóssil,” relata a Dra. Mírian L. A. F. Pachedo, professora da UFSCar.
“A preservação destes fósseis foi tão especial que até pequenos feixes de músculos de insetos ficaram preservados! Eles são tão diminutos que medem apenas uma fração de milímetro e, mesmo assim, estão visíveis! Até as cerdas que recobrem o corpo desses insetos ancestrais estão preservados, e elas tem apenas 1 micrômetro – isso é 0,001 mm!” relata Me. João H. Z. Ricetti, paleontólogo da UnC. A Dra. Pacheco complementa: “Conseguimos observar a preservação de matéria orgânica no espaço entre as espículas de esponjas marinhas, reforçando sua organização espacial original, e outros elementos importantes (como Arsênio, Enxofre e Bário) que podem revelar condições paleambientais pouco oxigenados na ocasião da preservação desses organismos.”
“O Campaleo é um local de preservação fantástica destes fósseis muito especiais e singulares. A descoberta dos aparelhos alimentares de conodontes (...) encontrados preservados no seu arranjo muito próximo aquele original, ou seja, como devia estar na boca do animal é espetacular e singular. Existem pouquíssimos registros desses achados no mundo. Estes fósseis e a forma como estão preservados no sedimento nos ajudam a obter várias informações sobre como era esse ambiente no passado. Que ali tinha água, que essa água era salgada, que não era muito gelada, que era uma água bem calminha (...) Isso possibilita entendermos e contarmos a história geológica dessa localidade, como era o clima e o ambiente em uma época que o mar banhava Mafra”, conta a Dra. Ana K. Scomazon, da UFRGS.
O que deixa as rochas da região ainda mais interessantes é o seu contexto estratigráfico. O estudo destas rochas mostra que, durante a decantação dos sedimentos que as formaram, passávamos pela maior glaciação que a vida complexa do planeta já passou. Este longo período glacial, que durou quase 100 milhões de anos, mudou drasticamente a vida no Planeta Terra. Porém, esse período foi entremeado por pulsos de breves aquecimentos globais. Foi em um destes curtos períodos de aquecimento que tornou a porção de um vasto mar antigo que se estendia por onde hoje está a cidade de Mafra, adequada para a vida. “Este foi um momento crítico na história da vida, e é parte de vários estudos de diversas instituições, que tentam entender o efeito das deglaciações nos mares do passado. Compreender como as faunas se adaptaram a estas condições é importante, porque pode servir como exemplos análogos para entendermos os efeitos do aquecimento global no Antropoceno, ou seja, o tempo em que vivemos”, conta o Prof. Dr. Rodrigo Horodyski, paleontólogo e tafônomo do Programa de Pós-Graduação em Geologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos.
O estudo desses fósseis e das rochas da região de Mafra trazem cada vez mais informações sobre a vida no passado da terra, e ajudam a entender como o norte de Santa Catarina era a quase 300 milhões de anos atrás. “Estes fósseis são conhecidos em nossa região desde o começo do século passado. Porém, desde as iniciativas do Prof. Dr. Oscar Rösler e do Prof. Mário Fritsch, em meados da década de 1990, o ritmo de escavações no Campaleo se tornou constante. Consequentemente, as pesquisas foram se tornando também mais frequentes. Hoje, com mais de 20 anos de constante comprometimento na coleta e salvaguarda, milhares de fósseis já foram coletados e estão sendo estudados por diversos pesquisadores do Brasil e do mundo em parceria conosco”, comenta o Dr. Luiz C. Weinschütz, geólogo, coordenador e pesquisador do CENPALEO.
Hoje compreendemos que, no passado, Mafra foi muito diferente do que estamos acostumados a ver atualmente, em nosso dia a dia. Se tornou consenso entre os pesquisadores que em poucos lugares do mundo é possível encontrar tantos fósseis deste período da história de nosso planeta tão bem preservados como na região de Mafra. “As escavações e as pesquisas continuam. Hoje há vários grupos de cientistas debruçados para compreender um pouco mais do passado do nosso planeta através dos fósseis de Mafra. Podemos esperar resultados ainda mais empolgantes no decorrer dos próximos anos” comenta João H. Z. Ricetti.





